A SANTIDADE DA FAMÍLIA FLORESCE NO COTIDIANO
  | Leitura: 5 minutos
Compartilhar:

A SANTIDADE DA FAMÍLIA FLORESCE NO COTIDIANO

Há encontros que terminam quando se encerram suas atividades. Outros, porém, continuam ecoando no coração muito tempo depois. Assim foi o 4º Encontro Diocesano das Famílias da Diocese de Araçatuba.

Entre as muitas graças daquele encontro, permanece viva em mim a mensagem de nosso bispo diocesano, Dom Sergio Krzywy. Inspirado na exortação apostólica Amoris Laetitia, do Papa Francisco, ele nos conduziu a uma verdade que, embora simples, transforma profundamente nossa maneira de olhar para a família: a santidade não nasce da perfeição, mas do amor vivido no cotidiano.

Vivemos num tempo em que somos facilmente seduzidos por modelos idealizados de família. As imagens que nos cercam parecem apresentar lares onde tudo funciona perfeitamente, onde não existem conflitos, cansaços ou dificuldades. Sem perceber, podemos alimentar a sensação de que nossa própria família está sempre aquém do ideal. O Evangelho, entretanto, nos conduz por outro caminho.

Deus nunca esperou famílias perfeitas. Basta percorrermos as páginas da Sagrada Escritura para encontrarmos famílias marcadas por alegrias e dores, fidelidades e fragilidades, encontros e desencontros. Ainda assim, foi justamente por meio delas que Deus realizou sua obra de salvação.

Também hoje Ele continua agindo na vida das famílias reais: aquelas que enfrentam dificuldades financeiras, preocupações com os filhos, enfermidades, diferenças de temperamento, limitações humanas e tantos desafios próprios da convivência diária. É exatamente aí que a graça de Deus deseja florescer.

Recordo-me de uma imagem utilizada por Dom Sergio que traduziu essa realidade de maneira muito feliz. Ele nos convidou a "abrir a geladeira" da nossa própria vida. Antes de olharmos para aquilo que falta, somos chamados a reconhecer os dons que Deus já colocou em nossa casa: o esposo ou a esposa, os filhos, os pais, os avós, a história construída juntos, as alegrias compartilhadas e até mesmo as fragilidades que nos convidam diariamente ao amor.

Essa imagem recorda uma profunda verdade espiritual: Deus não nos santifica numa vida imaginária, mas na vida concreta que recebemos. É na família que temos — e não naquela que idealizamos — que somos chamados a responder ao Evangelho.

Essa perspectiva ilumina também a compreensão cristã do matrimônio. Dom Sergio recordou que o casamento é um caminho de libertação. À primeira vista, essa afirmação pode parecer paradoxal. No entanto, ela revela um aspecto essencial do amor cristão.

Vivemos numa cultura que frequentemente associa felicidade à satisfação imediata dos próprios desejos. Espera-se, muitas vezes, que o outro seja capaz de preencher todas as necessidades afetivas do coração humano. Quando isso não acontece, surgem frustrações, cobranças e decepções. A experiência do matrimônio, porém, ensina outra lógica.

O amor amadurece quando aprendemos a sair de nós mesmos. Amar é servir. Amar é renunciar. Amar é permanecer. Amar é recomeçar inúmeras vezes. Nenhum esposo conseguirá corresponder perfeitamente aos sonhos de sua esposa. Nenhuma esposa conseguirá satisfazer plenamente todas as expectativas do marido. Isso não diminui o sacramento do matrimônio; ao contrário, revela sua verdade mais profunda. O coração humano foi criado para Deus. Somente Ele pode preencher plenamente nossos desejos mais profundos.

Por isso, esposo e esposa não são o destino definitivo um do outro. São peregrinos que caminham juntos em direção ao Senhor. O matrimônio não fecha o horizonte da existência; ele o abre para Cristo. Quando o casal compreende essa verdade, o relacionamento torna-se mais livre. Diminui a necessidade de exigir e aumenta a capacidade de agradecer. Crescem o perdão, a paciência, a ternura e a disposição para recomeçar.

Talvez seja justamente essa a grande missão da família cristã em nossos dias: testemunhar que a santidade não é uma realidade distante, reservada apenas a pessoas extraordinárias. Ela nasce nas pequenas escolhas de cada dia: numa oração feita em família, numa refeição partilhada, numa reconciliação depois de um desentendimento, na paciência diante das limitações do outro, no cuidado silencioso com quem sofre e na fidelidade aos compromissos assumidos diante de Deus.

O Papa Francisco escreveu que "a espiritualidade do amor familiar é feita de milhares de gestos reais e concretos" (Amoris Laetitia, n. 315). É justamente nesses gestos aparentemente simples que Deus continua realizando maravilhas.

Ao recordar as palavras de nosso bispo, renovo minha esperança nas famílias de nossas Dioceses. Apesar das dificuldades próprias do nosso tempo, continuo acreditando que nossos lares permanecem sendo um dos lugares mais fecundos para o anúncio do Evangelho. É ali que a fé aprende a falar a linguagem do carinho, do perdão, da responsabilidade e da esperança.

Que possamos acolher este convite como um verdadeiro itinerário espiritual: agradecer pela família que Deus nos confiou, rezar juntos com mais frequência e permitir que Cristo ocupe o centro de nossas casas. Quando Ele permanece conosco, até mesmo as fragilidades tornam-se caminho de santificação.

Que a Sagrada Família de Nazaré acompanhe cada lar, fortalecendo os vínculos do amor e renovando em todos nós a certeza de que a santidade floresce, silenciosamente, no cotidiano da vida familiar.

Pe. Paulo Sergio Martins
Assessor Diocesano da Pastoral Familiar
Diocese de Araçatuba